20/08/2009
Municipio: Diamantina
O TURISMO NO PATRIMONIO DA HUMANIDADE
Autor: Cristina Vieira / Fonte:
Cidade detentora do título de Patrimônio Cultural da Humanidade há 10 anos, Diamantina foi sede, nos dias 17 e 18 de agosto, do II Seminário Nacional Turismo de Inclusão, idealizado pelo Laboratório de Turismo e Artesanato do Centro Vocacional Tecnológico Chica da Silva (CVT), com o apoio, entre outros, do IDENE.
Realizado para comemorar a data, o evento serviu para “tecer” um painel do que representa esse titulo, pensar nas mudanças operadas até o momento e nas que estão por vir. Uma oportunidade para “ debater e fomentar ações para o fortalecimento ordenado do processo turístico, como foi proposto pelos realizadores.
Na abertura do evento, assessor da Secretaria Estadual de Turismo afirmou que, antigamente, o “ o turismo era tido como o deleite das elites, não se via esse aspecto de resultante sócio-econômica que existe hoje”, afirmou. O assessor citou as características do povo mineiro e suas peculiaridades e ressaltou que elas podem transformar Minas Gerais num dos grandes destinos internacionais, destacando que o Estado é hoje o segundo destino doméstico do país.
Werkema destacou que o turismo é um “ gerador de receitas rápido, que movimenta uma intensa cadeia econômica, e convocou os participantes, em sua maioria alunos da UFVJM, a se prepararem para essa indústria que está em franca expansão. O assessor pretende gerar um relatório a partir do evento.
Durante dois dias, o tema do seminário foi abordado em sete palestras e uma mesa redonda. A abertura do evento ficou a cargo de Jurema Machado, coordenadora de cultura da UNESCO. Em uma exposição detalhada, Machado explicou o passo a passo a ser seguido ate um sítio chegar a obter o titulo. Segundo ela, Diamantina sempre foi muito “ conciliada” com a condição de patrimônio histórico, e mantém com isso uma relação leve, alegre e confortável, diferente de outras localidades.
A coordenadora conclamou os alunos presentes no evento para serem protagonistas desse momento especial. Ela destacou ainda a recuperação do centro histórico da cidade, desde a obtenção do titulo e o roteiro articulado da Estrada Real, que hoje conta com programas do Turismo Solidário. Segundo ela, atuamente educação e cultura se firmam como alternativa econômica e de desenvolvimento.
Na seqüência, o professor Dr. Ycarim Megaço Barbosa, da Universitdade de Goiás ressaltou uma postura relevante para o turismo, fartamente encontrada em Diamantina: a hospitalidade, para ele , quesito fundamental quando se trata de turismo. Melgaço apontou as deficiências do setor. Segundo ele, o Brasil tem muitos recursos mas poucos “ produtos”. Ele citou a variedade de biomas brasileiros, como Amazônia, Pantanal, Cerrado, a vasta extensão territorial e chegou a um comparação importante: durante o ano o Brasil, em toda sua diversidade, recebe hoje cerca de 6 milhões de turistas internacionais. O México recebe 20 milhões, e Cancun, 3 milhões.
O professor pontuou a necessidade de se planejar melhor o setor, e ter uma política bem elaborada pra transformar seu produto em objeto do desejo, mas tendo como foco a inclusão social. Para ele, em Diamantina, o desafio reside em investir em estrutura física e humana.
Da Universidade Federal de Outro Preto, o professor Juca Villaschi, mestre em planejamento urbano e regional em sua palestra Sentidos Urbanos – Patrimônio e Cidadania falou brilhantemente sobre a importância dos exercícios de provocação para os olhares “viciados”. Melgaço coordena, em Ouro Preto, um projeto que deu nome á sua palestra, cujo objetivo é tirar as pessoas do seu padrão rotineiro de observação. Para ele, inclusão é “ tocar a emoção do morador, do ‘ dono’ do lugar. “ Nossas antenas parabólicas estão todas aí, mas estão enferrujadas”, afirmou.
O professor Francisco Arruda, de Olinda – PE, mostrou as características do turismo de massa, os eventos que alavancam o turismo em Olinda, onde o carnaval recebe de 700 mil a um milhão de pessoas por dia. Para ele “ uma população que não tem apropriação devida do seu patrimônio tem uma dívida com a cidadania”.
INCLUSÃO E NOVOS OLHARES
O segundo dia do evento foi pautado por apresentações que privilegiaram o turismo de inclusão e seus desdobramentos no setor. O professor mestre Carlos Eduardo da Silveira, doutorando em gestão e desenvolvimento pela Universidade de Málaga falou sobre o empoderamento que a comunidade deve obter dos seus símbolos e sobre patrimônio turístico.
Cleide Greco, técnica do IDENE, apresentou as diretrizes de implantação do projeto TURISMO SOLIDÁRIO, que tem o seu foco em ações turísticas como forma de inclusão. Desenvolvido em parceria pelo SEDVAN / IDENE. Ela ilustrou as ações implantadas. Segundo ela, o projeto começou trabalhando a auto estima e a valorização cultura nos municípios contemplados pelo projeto, que conta hoje com 64 famílias, que disponibilizam suas casas como receptivo familiar aos turistas solidários. Greco ressaltou que hoje, passados cinco anos, o programa já reflete na organização das casas e das comunidades. Ela lembrou que todas as ações passam pelos grupos gestores das comunidades, com acompanhamento do IDENE.
Ela destacou ainda que o turista solidário pode participar com mão de obra, tecnologia e educação, voltados para o apoio à comunidade e geração de trabalho e renda.
A professora Mariana Lacerda, em uma palestra cheia de lirismo e poesia citou uma frase que resume o turismo hoje: que “ quanto mais diverso é o que nos forma, único é aquilo que somos” . Mariana destacou novos olhares sobre as cidades e as paisagens e um contato maior entre o homem e o ambiente. Um belo exemplo foi a caminhada que acompanhou 12 mulas cargueiras, de São João da Chapada e os tropeiros, com um lote de artesanato em suas bruacas. Nessa caminhada, o turista pode reviver a época da tropeiragem, com todas as suas peculiardades como a musica, a comida típica, a cachaça, os causos e a forma de vida do tropeiro.
Segundo Mariana, “ o olhar pode ser adestrado pelo conhecimento”. Ela destacou a biodiversidade, a luminosidade da região, a arquitetura vegetal, o garimpo, a religiosidade, as belezas naturais e as expressões culturais, características que perfazem os roteiros de Minas.
Maria Sónia de Pinho, consultora do SEBRAE, em uma palestra emocionada, mostrou o belo trabalho realizado junto às comunidades do Capivari, Mendanha, Bonfim e Alecrim, de agosto de 2008 a dezembro de 2008, em que ela mapeou a gastronomia local, com suas quitandas, e seus fazeres peculiares, retratando o “ ambiente gastronômico no Vale do Jequitinhonha”. Ao final do projeto, o objetivo é criar cadernos de receitas com as guloseimas locais.
Segundo Maria Sônia, o projeto contemplou o ambiente, com utensílios e mobiliário, receitas salgadas, receitas doces, artesanato e cultura e as lendas. A consultora destacou a riqueza do projeto, que mostrou as peculiaridades tão mineiras como os chás, as ervas, as garrafadas, a religiosidade, a fartura. “ A erva, ora benze, ora tempera”. Ao final do livro de receitas, como não poderia faltar, o leitor vai poder aprender “ como se pega e como se mata um frango”. Um registro marcante da mineiridade.
Ao final do evento, o professor José Newton Coelho de Menezes falou sobre patrimônio imaterial, turismo e desenvolvimento e ressaltou e importância de “ criar uma conscientização problematizadora ao turista, criando nele a vontade de voltar ao lugar visitado. E questionou: como preservar aquilo que nossa memória quer guardar? O professor trabalha atualmente em um belo projeto sobre os quintais mineiros.
O II Seminário Turismo de Inclusão resssaltou a importância da preservação, da inclusão, do respeito aos fazeres e ás culturas regionais. Uma excelente oportunidade para ampliar a discussão em torno de um tema cada vez mais abrangente: o turismo como forma de identidade coletiva, formador de cidadania e gerador de emprego e renda.

|